O coordenador da Estratégia Nacional para a Integração das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo (ENIPSSA), Henrique Joaquim, apontou Barcelos como “o modelo a seguir”, revelando que o concelho tem sido “uma referência” neste domínio.
Henrique Joaquim, que falava na sessão de abertura da primeira edição do Fórum Elos D’Abrigo, ontem realizada em Barcelos, sublinhou que o concelho conseguiu, durante vários meses ao longo de 2025, ter zero pessoas em situação de sem-teto. Uma situação que considerou surpreendente.
Dando como exemplo o trabalho desenvolvido em Barcelos, há décadas, pelo Grupo de Acção Social Cristã (GASC), o coordenador da ENIPSSA sublinhou, também, que o conceito de ‘Housing First’ [abordagem que promove o acesso a habitação como a solução imediata e de arranque para a intervenção junto de pessoas sem-abrigo] não é recente, nem importado.
“O Housing First não foi inventado nos Estados Unidos. Há 40 anos, em Barcelos, já havia ‘Housing First’. É importante começar a escrever isso”, afirmou.
Henrique Joaquim alertou, no entanto, que o trabalho deve continuar, com especial enfoque na prevenção. “Não basta focarmo-nos em quem precisa, é fundamental trabalhar para que ninguém chegue a precisar”, concluiu.
O Fórum Elos D’Abrigo decorreu ao longo de toda a tarde, tendo como objetivo promover o trabalho em rede e a reflexão sobre a integração de pessoas em situação de sem-abrigo. O encontro reuniu entidades públicas, organizações sociais, parceiros locais e comunidade, com o objetivo de reforçar a articulação de respostas e boas-práticas na intervenção junto daquela população.
Na sua intervenção, o presidente da Câmara Municipal de Barcelos, Mário Constantino Lopes, destacou os resultados, recentemente divulgados, do Inquérito de Caracterização das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo, lembrando que Barcelos foi o concelho do país onde mais pessoas deixaram de estar nesta condição em 2024.
Este resultado reflete uma intervenção especializada e integrada, baseada num forte trabalho em rede, com destaque para o projeto “BarcELOS D’Abrigo”, desenvolvido em parceria pelo Município de Barcelos e pelo Grupo de Acção Social Cristã (GASC). O percurso de Barcelos nesta área conta, na verdade, com cerca de 40 anos de história, consolidando a cidade como referência nacional em políticas de inclusão social.
Mário Constantino Lopes sublinhou o orgulho do Município no trabalho desenvolvido pelo GASC. “É um orgulho enorme para Barcelos ter esta instituição, que tão bem tem feito à população barcelense”, afirmou. Recordou, ainda, que centenas de pessoas passaram, em Barcelos, pela situação de sem-abrigo nos últimos anos, mas a realidade atual é “completamente diferente”.
“Temos um dos melhores resultados a nível nacional na reinserção e integração destas pessoas, o que é muito estimulante e prova que, com esforço coletivo e trabalho em rede, é possível resolver algumas dificuldades”, acrescentou.
Também presente na sessão, o presidente da direção do GASC, Domingos Lopes, recordou que este caminho começou em 1976, com a fundação da instituição, destacando o papel visionário de um dos fundadores, o professor Constantino Lopes, que marcou presença na sessão, testemunhando, na primeira pessoa, os primeiros anos deste trabalho.
“Numa época de grande crise económica, social e política, o GASC teve a coragem de construir casas para pessoas em situação de sem-abrigo”, lembrou Domingos Lopes.
Salientou, ainda, a importância do Município, “que acolheu, apoiou e financiou projetos apresentados pelo GASC, permitindo alcançar os resultados hoje reconhecidos”.
Por seu turno, João Ferreira, diretor do Centro Distrital de Braga da Segurança Social, destacou o papel do Município de Barcelos na abordagem ao fenómeno das pessoas em situação de sem-abrigo, salientando a importância de uma estratégia planeada, sustentada no trabalho em rede e na articulação com as diferentes entidades.
Referiu, ainda, que os resultados alcançados no concelho refletem uma intervenção consistente, assente numa visão integrada e num compromisso institucional contínuo, com destaque para o desenvolvimento de respostas habitacionais com acompanhamento social, enquanto instrumentos fundamentais para a promoção da dignidade, da autonomia e da inclusão.
Documentário em produção
O Fórum ficou, também, marcado pela realização de uma mesa-redonda, “Elos da Comunidade”, onde foi dada voz à experiência e ao impacto do projeto, através de diferentes testemunhos, desde intervenientes, beneficiários e pessoas que participaram diretamente no processo desenvolvido pela equipa BarcELOS d’Abrigo.
Foi, ainda, apresentado um resumo do documentário sobre as pessoas em Situação de Sem-Abrigo no Município de Barcelos, uma produção da Câmara Municipal de Barcelos, com realização de Carlos Araújo, e que tem como objetivo não apenas mostrar dados e números, mas também histórias de vida, percursos de superação e fragilidades.
Este documentário encontra-se, atualmente, em fase de produção e deverá ser estreado brevemente.
O Fórum prosseguiu com a entrega de certificados a empresas e pessoas particulares, bem como a entidades parceiras, terminando com a intervenção do vereador da Ação Social da Câmara Municipal de Barcelos, José Paulo Matias.
O autarca sublinhou que “falar sobre pessoas em situação de sem-abrigo é, acima de tudo, falar de pessoas – pessoas com nome, história, direitos e um lugar legítimo na comunidade”.
José Paulo Matias destacou, ainda, que nada disto é possível sem um verdadeiro trabalho de parceria, sublinhando que a conjugação de recursos, experiências e vontades permite criar respostas mais eficazes, sustentadas e humanas, onde cada parceiro assume um papel fundamental numa cadeia de solidariedade e responsabilidade coletiva.
O evento terminou com uma visita à exposição “A Rua Nunca é Casa”, patente na Biblioteca Municipal de Barcelos.




